20 maio 2012

Relógios de papel

Quando se ama alguém, tem-se sempre vontade. uma vontade louca e desesperada, seja do que for, e espera-se. espera-se o tempo que for preciso. se ela por algum motivo não vem, nos esperamos, esperamos porque não nos é permitido esquecer, não nos é permitido fugir.
Ficamos retidos no tempo, por relógios imaginários com ponteiros de papel.
O tempo passa, os ponteiros mexem, mas a vida não anda, fica presa á pessoa que nos roubou a noção de tempo e nos condenou ao passar dos dias na sua ausência.
Viver na espera dói e cansa, hibernamos e vegetamos, entregamo-nos á nossa própria solidão, embarcamos num navio a caminho do naufrágio.
E se o resgate não vier nunca ? e se "nunca" não existir? existirá "sempre" ? talvez, talvez não.
Aprendi a substituir "sempre" por "ate ao fim" e "muito tempo", não por tua causa mas porque me fechei para ferias e me esqueci que é bom sonhar.
Passam-nos mil e uma hipóteses pela cabeça, e a probabilidade de acertar em um desses dramáticos desfechos inventados pela nossa cabeça é mínima, tao pequena, mas tao inevitavelmente aceite.
Contigo tudo parece certo, tudo parece infinito e sabe tão bem.
Ainda bem, ainda bem que voltaste. Viver sem ti é viver na espera, viver com uma esperança vã, esperar que a vida nos traga aquilo que mais desejamos, na incerteza de um amanha que demora sempre a vir.
É bom ter-te, é bom ver-te crescer com o passar dos dias e cuidar de ti. Saber que agora é de mim que precisas, que passo a ser o teu centro de gravidade e que para além de mim não existe mais ninguém.
Lá vens tu, e sorris, sorris sempre, e sabe bem ver-te sorrir a meu lado, sabe bem ter-te por perto.
Páras os relógios, invertes o sentido dos ponteiros e abraças-me, abraças-me com forca.
Alteras as leis da física, ultrapassas raios de luz e deixas-me fora de órbita a flutuar.
Talvez eu não saiba dizer o valor da felicidade, apenas porque ninguém te tem como eu, não tens preço, não tens comparação. Assim sendo, peço-te, fica comigo. Fica comigo todos os dias, a todas as horas, não para um tal "para sempre" que não exista, mas por muito tempo até ao fim dos nossos dias.

Amar-te é pouco.


(texto já um pouco antigo)

05 maio 2012

Olá mãe..

Já viste mãe como hoje o dia está triste ? Sinto os dedos a congelar do frio, arrepios na espinha invadem-me e nem o farto cachecol me aconchega o pescoço. Chocolate quente e manta nos joelhos, risadas e serões, seria tão bom não achas mamã ?
 Já nem me consigo lembrar da tua cara, só de um vulto alto e elegante, com cabelos loiros pelos ombros e uma mão delicada a confortar-me no berço e a embalar-me o sono.
Amanhã é dia da mãe e não te comprei flores, não te comprei nem sequer chocolate, nem fiz a lembrança de cartolina daquelas que se fazem nas escolas e que eu fazia sempre porque achava que ias ficar contente por me ter lembrado de ti.
Não fiz nada porque me sinto triste, e de que o vale fazer se não estás ? será isso mais importante que te dizer  que te amo ?
Já nem me lembro da tua voz, nem dos teus hábitos , dos teus vícios e das tuas risadas. é tão injusto não achas ? esta memória que se lembra e absorve tudo de inútil que há e que não se consegue sequer lembrar de ti, desculpa mamã, acho que é por me esforçar tanto e tantas vezes para o fazer que já te imaginei de tantas formas que a verdadeira imagem se sumiu de mim.
Imagino-te numa nuvem gigante durante o dia, leve e linda a olhares cá para baixo sorrateiramente e a rir de mansinho, de noite imagino-te numa estrelinha brilhante silenciosa e quieta para não me acordares, acho que penso sempre isto porque era isso que eu pensava antes .
"- Quando é que a mamã volta?"
"- Ela está no céu agora, a passear e a ser feliz"

A tua menina cresceu, o meu cabelo cresceu, as minhas pernas cresceram, os meus braços, os pés, as mãos, os dedinhos antes pequenos e finos , já troquei os jogos de futebol no recreio por kit's de maquilhagem, as roupas largas por vestidos justinhos, já sou uma menina, como tu
. Sei que sou tão igual a ti e tu tão igual a mim como duas gotas de agua, tão iguais e transparentes,duas gémeas com a mesma constituição, com as mesmas formas químicas e a mesma simplicidade. 
Sei que de alguma forma me deixaste para continuar o que não conseguiste e para ser o que não foste por não teres tido tempo.
Deixaste-me os teus erros para não os cometer, e deixaste-me os teus valores mais bonitos para ser uma "menina de bem" como tu dizias .

Deste-me muito mais do que algum dia te poderia dar com cartolinas e pequenos trabalhos manuais, e neste dia da mãe vou pensar em ti com muito carinho.

Tenho muitas saudades tuas, mamã , quando é que voltas ?

                          PS: I love you